Como escrever bem?

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Uma série de 3 artigos muito interessantes sobre como escrever bem qualquer tipo de texto para qualquer destino que eu encontrei
lendo o www.digestivocultural.com. Eu vou postá-los aqui os 3 num mesmo post, embora fique um pouco comprido de ler, para ficar mais organizado. Espero que apreciem a leitura e se sintam motivados a escrever alguma coluna aqui no opiniaoweb.com! Parte1

Escrever bem não é uma das tarefas mais simples dessa vida, isso é fato, mas, de modo geral, escrever corretamente é algo acessível a todas as pessoas praticamente. Deixando de lado os fatores sociais e econômicos, escrever,
pelo menos de maneira adequada, depende de uma série de fatores, que,
normalmente, podem ser conseguidos individualmente, sem dependência de
mestres ou incentivos de qualquer natureza. Evidentemente, a habilidade
de combinar palavras, aliada a capacidade de inventar (ou narrar)
histórias e descrever cenários interessantes são bastante pessoais,
porém, podem ser desenvolvidas e treinadas. Felizmente, ninguém está
fadado a escrever mal toda a vida…




Não
pretendo fazer nenhuma espécie de manual de boa escrita ou de como se
tornar um escritor, até mesmo porque não saberia como fazê-lo. Para
isso, basta procurar na web que há inúmeros textos desse tipo, estilo
manual de redação para vestibulandos (aliás, geralmente péssimos, pois,
quase sempre não parecem considerar fatores fundamentais). Desejo,
entretanto, explicar a minha visão de como evoluir no assunto e de como
criarei meu filho para que aos 18 anos ele não precise ler manuais de
como escrever bem para fazer a redação do vestibular, se ele quiser prestar, a propósito.

Antes de entrar nas Maroldicas, convém inicialmente oficializarmos a separação entre os tipos de escrita, afinal, escrever para um blog não é similar a escrever para o New York Times, assim como escrever para o saudoso Notícias Populares não é como escrever um livro. Pretendo abordar todos esses tipos de escrita, se possível, estendendo-o até as colunas futuras, se o editor desse Digestivo não me der o bilhete azul antes.

Como escrever bem, parte 1 – Antes de começar a escrever

Nenhum
humano nasce escrevendo, parece. Logo, deve existir algo que ocorre
entre a saída do útero materno e o recebimento do Pulitzer. Bem, eu não
sei o que é esse algo, mas posso chutar. Evidentemente, há casos
extremos em que percebemos nitidamente que o escritor é um gênio, o que
significa que o cérebro dele foi concebido para fazer aquilo – escrever
- melhor do que as demais atividades (e, portanto, melhor que as demais
pessoas). Esse tipo de escritor não me interessa pois é assunto da
ciência, ele não é um cara qualquer. Interessa-me sim o escritor comum
que escreve bem e que é igual a mim, e que deve ter sido “treinado”
para isso. De modo geral – e já até demorei demais para falar isso –
essas pessoas lêem muito. Diariamente. Incessantemente, às vezes.

Na
minha opinião, qualquer tipo de leitura treina o cérebro. Portanto, se
você não se importar em treiná-lo apenas com vocabulário e linguagem
web, leia apenas blogs. Se você não se importar em treiná-lo em
frases triviais com apenas 3 ou 4 palavras, leia gibi. Mas, se você
quiser um pouco de tudo isso, leia de tudo, mas privilegie as pessoas
que escrevam bem, pois elas podem te ensinar mais sobre como escrever do que os que escrevem não adequadamente.

Está
bem, está bem, eu disse o óbvio agora. Mas, então, porque as pessoas
não fazem isso? Um dia conheci um rapaz que fazia jornalismo e tinha
como ídolo literário nosso best-seller Paulo Coelho. Percebi que tinha algo errado, mas fiquei quieto, desconfiado, até receber um e-mail
dele, contendo mais erros em 10 linhas do que todos os erros que Olavo
Bilac escreveu na sua obra toda. Conversamos umas vezes depois… Ele
ouvia os nomes e obras consagrados como se ouvisse pela primeira vez o
grito de guerra da equipe iraquiana de hóquei sobre o gelo. Um dia,
comentei: se você quer escrever bem, não pode ler mal…

O
modo como se lê também é importante. Eu sei, ler é ler, certo? Errado.
Não são todas as pessoas que lêem da mesma maneira… Ler como lazer
não é como ler para aprender. Infelizmente. Seria muito mais fácil se
cada vez que eu lesse um texto assimilasse tudo o que está nele, mesmo
se naquele dia lia apenas para me distrair, enquanto o bebê confecciona
uma sinfonia doce e meu time corria na TV ligada. Esse dia não devo ter
prestado muita atenção porque até precisei voltar umas páginas atrás,
depois, somente para descobrir o que tinha acontecido nelas… E, se eu
quisesse ter aprendido mais, deveria ter analisado o texto, as frases,
aprendido com as construções, o modo como ele descrevia a arma usada no
crime, os adjetivos desconhecidos que ele atribuía ao assassino. E não
fiz nada disso, só li. Eu me distraí, é verdade, mas foi só isso. Eu
não tive uma aula de literatura na sala da minha casa naquele dia,
ainda que o autor tivesse me mostrado exatamente como ele escrevia…

Bem,
meu moleque já sabe que terá que ler, o que ler, quanto ler e até como
ler. Agora é só esperar pelo sucesso, não? Não. Ele vai ter que escrever, escrever, escrever.
Quando, aos 7, ele me trouxer uma poesia própria (que a mãe dele vai
guardar, acredito), não vai ser tão boa quanto aquela que ele escrever
aos 10. Nem a dos 15. Se ele parar para analisar, verá que tudo parece
ser uma evolução na arte da escrita. Ele poderá ler todos os livros da
biblioteca do rei Salomão, mas, se jamais escrever
algo, minha editora terá que recusar seu primeiro conto, que estará
fraco e imaturo. Daí, quando ele estiver revoltado comigo e ameaçar
sair de casa, terei que explicar que o segundo geralmente sai melhor
que o primeiro e assim por diante.

É treino, meu filho. Você já
aprendeu a ler, já o fez suficientemente, agora treine escrever
suas próprias histórias e seus próprios personagens… Ele irá até me
agradecer, anos depois dessa última aula, pois ele mesmo verá que o
texto passa a fluir mais tranqüilamente quando já se escreveu dezenas
deles pela vida. Você passa a arriscar mais, repete construções que lhe
agradaram, insere vocabulário novo, sabe o que interessa ao leitor,
sabe, enfim, escrever.

Parte 2

Conforme havia dito é essencial ler (bem) para escrever de maneira correta. Mais do que simplesmente escrever sem erros, a leitura nos garante novas possibilidades de textos, novo vocabulário, novas idéias, novos estilos até.

Escrever
corretamente, apenas, pode ser útil, digamos, num texto jornalístico,
mas, não é suficiente para possibilitar a confecção de uma poesia ou um
texto literário, por exemplo. Há inúmeras e evidentes diferenças entre
os tipos de escrita, e transitar confortavelmente através destes é o
objetivo a ser alcançado, algo importante, aliás, afinal, escrever bem significa escrever bem qualquer tipo de texto, certo?

Ao se preparar para escrever
algo, alguns passos devem ser seguidos (geralmente inconscientes, na
maioria das pessoas). O primeiro deles é identificar claramente sobre o
que você vai escrever
(excetuando-se, talvez, romances/contos/poesias, tratados na “parte 3″
dessa série). Se você não tem a mínima idéia do que dirá no texto, é
melhor procurar alguma fonte de informação que possa lhe auxiliar, ou
correrá o risco de dizer algo equivocado.

Saber sobre o que se vai
dizer é metade da tarefa, a outra, aliás, é transformar tudo em
palavras, ligá-las de forma adequada e, se for o caso, melhorar a
construções e as ligações, em um segundo momento, geralmente. Se você
não domina o assunto que irá abordar e não pode (ou não tem tempo para)
consultar referências, pense duas vezes antes de começar.

Se, ainda
assim, precisar escrever
por algum motivo, procure relacionar o texto com assuntos/tópicos que
domina. Isto é, procure um mote para falar de algo que possa fazê-lo
com segurança, tomando apenas o cuidado de encaixá-lo no assunto em
questão. Mas, se você for alguém (muito bem) preparado para escrever,
pode superar algumas vezes o problema do conteúdo apenas com a
elegância do seu texto (o que, fique claro, é uma espécie de
estelionato literário, afinal, você enrolou o leitor e ele nem
percebeu!).

Bem,
se você já tem em mente o que irá abordar no texto, precisa escolher a
forma como fará isso. Essa fase é como escolher as suas roupas para
vestir: se você vai ao cinema, usa um tipo de roupa, entretanto, se vai
ao velório, usa outro tipo, e se vai a praia (ou esquiar), um outro,
diferente dos anteriores, mas você precisa ter no seu guarda-roupa
todos esses modelos, pois não sabe quando será preciso utilizá-los.
Assim, se vai escrever para seu blog (internet/informal), para o Digestivo Cultural
(jornalismo/internet) ou uma tese de doutorado(acadêmico), deve se
encaixar no estilo esperado pelos que irão lê-lo. Jamais o contrário.
Além disso, escrever bem não se refere unicamente ao texto em si, mas o modo como você o apresenta aos seus leitores.

* Internet – Depois dos blogs,
essa parece ser a parte mais fácil de todas, não é? Talvez, vai
depender muito de que tipo de leitor você tem e que tipo de autor quer
ser para estes. De maneira geral, as pessoas não querem textos
demasiadamente sofisticados para lerem na internet. Eu, por exemplo, só
leio textos muito complexos deitado, com boa iluminação e longe do
barulho do computador. Eu não leio nada muito sofisticado na tela do
computador, não consigo me concentrar da maneira que é necessário.
Portanto, para web, não complique muito na linguagem e no conteúdo.
Independente do vocabulário e da forma da escrita usada, os textos da
internet não devem ser longos, nunca! Cansei de visitar sites
interessantes, porém, com textos gigantescos que levaria 2 ou 3 horas
para ler… defronte o computador, evidente (nem todos têm impressora
ou querem imprimir). Portanto, se seu texto é grande você já está quase
fora. Outra coisa, não encha seu texto com infinitos links. Isso confunde o leitor e deixa seu texto sem graça. Coloque apenas os links
realmente importantes para que qualquer um possa entender o conteúdo do
seu texto e não um mar de referências perdidas. Esteticamente, separe
os textos em parágrafos espaçados, pois blocos muito grandes cansam os
leitores. Não use fontes nem cores incomuns (pode não parecer, mas a
web tem uma espécie de padrão). Ah, e cuidado com o que irá escrever, pois a verdade pode estar a apenas algumas buscas no Google…

* Blogs – Há muitos tipos de blogs.
Alguns têm textos mais bem escritos do que muitos livros que temos por
aí. Todavia, não há muita responsabilidade envolvida. É um blog, meu amigo, se eu quiser, escrevo sem acentuar, uso linguagem web, escrevo de qualquer maneira! Isso é fato, por isso escrever para blogs é fácil. Provavelmente, você não irá receber um e-mail de alguém que visitou o seu blog e não o achou bem escrito. Acredito que isso não acontece, mas o contrário sim. Se visitam seu blog – e estão acostumados com esses blogs
infanto-juvenis terríveis que proliferam por aí – podem se surpreender,
vendo que ele é dos bons, o que é raro na internet. Para escrever bem em blogs é fundamental ser um leitor de blogs. Os blogs têm um estilo próprio, uma forma particular de informar, opinar e divertir, e, se você quer ter um blog, deve se encaixar… As pessoas irão ao seu blog querendo ler um blog (e o que isso significa) e é importante dar isso a elas, não importando o estilo.

* Jornal (impresso) – Parto do ponto inicial que jornal impresso nesse país é artigo de luxo, ainda que as garotas do Saia Justa
pensem o contrário! (a propósito, eu gostava tanto da Márcia Tiburi…
eu até queria casar com ela, sabe? O que ela está fazendo ali, Deus?).
Isso significa que, apesar da educação ser um grave problema nosso, as
pessoas quem lêem jornal têm (ou deveriam ter) instrução (é claro que
alguns só olham o caderno de esportes, mas, finjamos que não!) e você
pode, sendo assim, exigir mais de seus leitores. Como assim exigir mais
de meus leitores?, não são eles que nos elegem? Não exatamente, se você
escrever
difícil (ou assuntos muito restritos), por exemplo, está escolhendo
seus leitores (e isso só não muito é bom quando o jornal te solicita,
educadamente, que você seja mais acessível e comum). Jornalismo, para
mim, é muito – muito mesmo – distante de literatura. Alguns escritores
são jornalistas, isso é fato. Mas, de modo geral, poucos jornalistas
são escritores. Conheço jornalistas que não leram 20 livros nas suas
vidas inteiras… Até sabem contar uma boa história, geralmente baseada
em pesquisa árdua e citações nominais, mas são incapazes de escrever
um livro pelo menos razoável.

É completamente diferente uma coisa de
outra. Inventar histórias e personagens é muito mais difícil do que
reproduzir os que já existem. No jornal, você sempre tem o tamanho
certo da sua matéria, o que quase sempre te impõe limites ruins. Nesse
tipo de texto você precisa ser objetivo, direto. Mesmo que seja muito
interessante, você não poderá escrever 50 linhas apenas sobre o sapato egípcio do personagem. Escrever texto jornalístico é quase como escrever
uma receita de bolo, não há muito espaço para improvisação e nem para o
talento particular do cozinheiro. Se você tem liberdade para publicar o
que quiser, cuidado. Poesias são lidas por, vejamos, ninguém, ainda que
boas. Mini-contos parecem atrair alguns curiosos, mas geralmente eles
esperam assuntos muito amenos e superficiais. A linguagem?, depende do
que se escreve, mas, geralmente, é simples, sem sofisticação, mas
dentro dos padrões da mídia impressa.

Parte 3

Ainda não encontrada, assim que eu encontrar eu coloco aqui!
Autor das partes: Marcelo Maroldi

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  1. 1 resposta to “Como escrever bem?”

  2. Por um dia meu nome é esse Em Set 18, 2010 | Responder

    Vam si gostei da aula…

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