Concursando -> Análise de provas antigas

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Nessa segunda coluna da série Concursando eu quero divagar um pouco sobre uma das estratégias que existem para a preparação ao se prestar um concurso. Eu a utilizei ao fazer o segundo concurso da minha vida. Era um concurso para uma instituição federal de ensino médio e técnico (não vou citar o nome). No estado era a mais conceituada e concorrida instituição de ensino pré-universitário. Muitos pais abastados colocavam seus filhos em cursinhos o ano todo de modo que no final do ano eles estivessem preparados para fazer a prova. É triste dizer, mas só havia naquele ano 120 vagas para o periodo da manhã e mais 120 vagas para o periodo da tarde. A concorrencia era enorme, pois acredito que se inscreveram naquele ano candidatos somando mais de 10 vezes o número de vagas existentes.Eu tinha feito a inscrição para o horário da manhã, raciocinando que como eu muitas pessoas também não gostariam de estudar pela manhã e então ficaria mais fácil para mim passar. Pensava que a concorrência seria então menor. Não sei se foi uma benção ou uma maldição, mas o fato é que somente após a matricula foi que eu percebi que estava enganado. Dois terços dos que se inscreveram queriam estudar pela manhã. E olhe que as aulas começavam às 07 horas e terminavam às 11:50 da manhã. Um horário muito ingrato (lembro que houve dias que acordava as 5:30 da manhã, graças a Deus esse período infame é passado) para crianças.

Bem, voltando a questão da estratégia: eu não tinha dinheiro para fazer cursinho. Tinha de fazer alguma coisa por mim mesmo. Na escola vários colegas estavam se preparando para a prova no final do ano, e isso já desde o inicio. Eu tinha amizades muito boas naquele colégio, então convenci meus amigos a me deixarem tirar cópias das apostilas que eles recebiam nos cursinhos. Não vou fazer aqui demagogia dizendo que elas não serviram para absolutamente nada. Serviram sim, de fato nem tanto pelo assunto - o qual eu já sabia pois sempre procurava tirar boas notas na escola, e isso já é uma grande ajuda na hora de fazer qualquer concurso - mas pelo seu estilo. Notei que nas apostilas várias questões eram tiradas de provas de outras instituições de ensino parecidas. Mas poucas questões eram tiradas das últimas provas daquela mesma instituição.

Ao ver isso procurei feito um louco as provas dos últimos 10 anos daquela instituição. Tirei cópias delas e fiquei lendo e relendo todas as questões. Havia provas de matemática e portugues. Uma coisa que eu notei de cara foi que toda prova de português tinha uma ou duas questões sobre o hino nacional. Pode parecer até coisa pouca, mas num concurso muito concorrido qualquer ponto que você tiver garantido é uma vantagem enorme em cima dos outros candidatos. Passei a semana estudando o hino nacional. Já sabia ele de cor desde os tempos do primário, mas passei a analisar outras coisas. A forma em que os sujeitos e predicados estavam sempre invertidos, o significado daquelas palavras esquisitas do tempo em que se amarrava cachorro com linguiça. Foi um estudo muito útil (para aquela prova né, pois aonde no mundo a gente vai usar o conhecimento de que as margens plácidas do ipiranga são o sujeito da primeira frase do hino?).

Depois disso comecei a analisar a prova de matemática. Eles gostavam de colocar na prova muitas questões de geometria. Então eu tinha de decorar aquelas fórmulas mesmo, não tinha outro jeito. Outra coisa: os problemas nas provas quase sempre se resolviam com sistemas de equações do primeiro ou segundo grau (coisa chique né, lembra quando você tava na oitava série falando pra Deus e pro mundo que estava aprendendo equação do segundo grau??? heheh). Então eu já tinha essa 3 dicas: o hino, os sistemas de equações e as fórmulas de geometria. Foquei meus esforços nessas três coisas.

Meus colegas de turma apesar de me ajudarem com as apostilas achavam que eu não tinha chance por não ter feito nenhum cursinho. Lembro de um cursinho muito falado na época, o PHD. Era caro que só a peste. E tinha uma reputação enorme, para os pais quem entrasse ali tinha a matricula garantida na instituição federal. Pobres pais, sempre achando que estão fazendo o melhor pro seu filho só porque estão pagando caro. Um triste engano. Os pais fazem melhor pelos seus filhos os incentivando a estudar sozinhos, dando motivação para eles estudarem.

Bom, acabou que no dia da prova lá estávamos nós. De fato cairam duas questões sobre o hino, e problemas resolvidos através de sistemas de equações e aquelas questões de geometria. Nessas me dei bem. Nas outras fui razoável. Ainda tive o azar de errar uma questão pois quando fui marcar no cartão resposta borrei o quadrado. Mas tudo bem, cabeça erguida. No dia do resultado lá estava meu nome no vigésimo lugar para o turno da manhã. Bem a frente dos meus colegas que fizeram vários cursinhos, e de fato infelizmente a maioria deles nem passaram.

Que fique bem claro aqui o que eu quero dizer. Não sou nenhum gênio ou coisa parecida, essas coisas não existem. Algumas pessoas são acomodadas outras não. Com um pouco de estratégia e um trabalhinho para coloca-la para funcionar você pode deixar de ser uma pessoa acomodada. As equipes que preparam essas provas são acomodadas. Isso é um fato. E continuarão a ser. Se você observar todas as provas passadas da instituição para a qual vai prestar um determinado tipo de concurso e analisar bem qual é a tendência da equipe preparadora da prova, quais os temas que sempre caem, o que as questões mais cabeludas envolvem, bem como outras coisas, você terá uma vantagem enorme em cima dos outros. É tudo uma questão de estatística: pela distribuição normal (se você não sabe o que é isso não tem problema, só uma curvinha parecida com o formato de um sino) você sabe que no máximo uns 5% dos candidatos estarão bem preparados. Talvez com um pouco mais de estratégia você esteja entre eles :)





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